Cantora e compositora sergipana mistura referências afro-indígenas, árabes e nordestinas em um trabalho que propõe um novo olhar sobre a Caatinga e a riqueza cultural do sertão brasileiro.
A música pode ser uma forma de contar histórias, preservar memórias e reconstruir a maneira como enxergamos nossas próprias raízes. É a partir dessa perspectiva que a cantora, compositora e pesquisadora Héloa desenvolve sua trajetória artística. Com uma pesquisa que aproxima música, identidade e ancestralidade, a artista sergipana apresenta ÁRIDA, espetáculo que percorre diferentes unidades do Sesc no estado do Rio de Janeiro em outubro.
Mais do que uma apresentação musical, o projeto propõe uma viagem pelas paisagens, pelos ritmos e pelos conhecimentos que atravessam a formação cultural do Nordeste. A Caatinga e o semiárido são pontos de partida para uma criação que busca ampliar a percepção sobre o sertão, frequentemente associado apenas à seca e à escassez, mas também marcado por diversidade, criatividade e resistência cultural.
Uma trajetória construída entre música, teatro e artes visuais
A relação de Héloa com a arte começou cedo, dentro de casa. Em entrevista ao Itaú Cultural, a artista contou que acompanhava desde criança as apresentações do pai, músico autodidata que também trabalhou com a cultura popular de Sergipe. A mãe, antropóloga e apaixonada por música, contribuiu para um ambiente em que diferentes expressões artísticas faziam parte de sua formação.
Ainda adolescente, Héloa estudou teatro e canto lírico. Aos 17 anos, já participava de espetáculos infantis e ingressou no curso de Artes Visuais da Universidade Federal de Sergipe. A experiência com o palco, o corpo e a imagem ajudou a construir uma linguagem artística que não se limita à interpretação vocal.
Em 2013, lançou o EP Solta, trabalho que marcou o início de sua trajetória autoral. Dois anos depois, mudou-se para São Paulo em busca de novas experiências e de uma imersão artística que permitisse explorar outras possibilidades de criação, incluindo o cinema.
A mudança também trouxe novos contrastes. Em seu relato ao Itaú Cultural, Héloa falou sobre a experiência de sair de Aracaju, cidade onde vivia perto do mar, e passar a conviver com a paisagem urbana paulistana. Esse deslocamento cultural e geográfico se tornou parte de suas reflexões artísticas.
Outra influência importante vem da convivência com a avó, com quem viveu por 25 anos. As músicas ouvidas juntas, os discos de vinil e as canções populares ajudaram a formar seu repertório afetivo. Essas lembranças revelam como sua pesquisa musical também nasce de experiências familiares e de histórias que atravessam gerações.
ÁRIDA: o sertão para além da imagem da seca
No novo espetáculo, Héloa aprofunda a investigação sobre as matrizes africanas, indígenas e árabes presentes na cultura nordestina. Com produção de Yuri Queiroga e direção artística da própria cantora, ÁRIDA reúne referências que atravessam diferentes tradições musicais brasileiras.
Baião, rojão, repente, embolada, coco e samba de roda integram esse universo sonoro, acompanhado por instrumentos como maracá, viola, pandeiro, rabeca, pífano e djembê.
A proposta é apresentar essas referências não como elementos isolados do passado, mas como manifestações vivas, capazes de dialogar com a música contemporânea e produzir novas interpretações sobre a identidade brasileira.
A pesquisa também questiona a visão limitada do semiárido como território de falta. Em vez de concentrar o olhar apenas nas dificuldades climáticas, o trabalho destaca os saberes, as expressões artísticas e a diversidade cultural que fazem parte da região.
Essa abordagem coloca a ancestralidade no centro da criação. A música se torna um espaço de encontro entre diferentes heranças, tempos e territórios, sem perder de vista as experiências pessoais que formaram a própria artista.
Uma artista que transforma pesquisa em experiência de palco
A formação de Héloa em diferentes linguagens artísticas também aparece na maneira como ela pensa suas apresentações. Em entrevista ao Itaú Cultural, a cantora explicou que procura construir o show como um espetáculo completo, no qual o corpo, os movimentos e a interpretação ajudam o público a sentir as histórias presentes nas canções.
Essa concepção amplia a experiência para além da música e aproxima sua performance de uma narrativa cênica. A pesquisa, nesse contexto, não fica restrita ao estudo de ritmos e instrumentos: ela se transforma em expressão, presença e comunicação com o público.
Com ÁRIDA, Héloa apresenta um trabalho que reúne investigação musical e reflexão cultural. Sua trajetória mostra como referências familiares, deslocamentos, estudos artísticos e memórias podem se transformar em linguagem própria.
Héloa apresenta ÁRIDA no Rio de Janeiro
O público poderá acompanhar o espetáculo em diferentes cidades e espaços culturais, com apresentações programadas pelo Sesc RJ:
- 20 de outubro, às 19h: Sesc Copacabana, na Rua Domingos Ferreira, 160, em Copacabana.
- 22 de outubro, às 19h: Sesc Ramos, na Rua Teixeira Franco, 38, em Ramos.
- 23 de outubro, às 19h: Sesc Nova Iguaçu.
- 24 de outubro, às 20h: Centro Cultural Sesc Quitandinha, na Avenida Joaquim Rolla, 2, em Petrópolis.
Os ingressos têm valores diferentes conforme a unidade e a categoria do público, com opções de meia-entrada, preços para credenciados e gratuidade pelo Programa de Comprometimento e Gratuidade (PCG), conforme as regras de cada local. A programação está sujeita a alterações.
Mais informações e ingressos estão disponíveis no portal de programação do Sesc RJ.
Ao levar ÁRIDA para esses palcos, Héloa apresenta ao público um trabalho que conecta música e memória, tradição e experimentação. É um convite para escutar o Nordeste por diferentes perspectivas e reconhecer, nas sonoridades e nas histórias de seu povo, a força de uma cultura em constante movimento.









