Comer chocolate para aliviar o estresse, sentir vontade de comer sobremesa após o almoço ou ter dificuldade para resistir a um doce são situações comuns. Mas esses comportamentos significam que uma pessoa é viciada em açúcar?
Não necessariamente. Gostar de doces, sentir desejo por açúcar ou consumi-lo com frequência não é suficiente para caracterizar um vício. Para classificar um comportamento como dependência, é preciso avaliar critérios específicos, a perda de controle e os prejuízos causados na vida da pessoa.
Uma revisão científica publicada em 2016 na revista European Journal of Nutrition investigou justamente essa questão. A conclusão dos pesquisadores foi que, até aquele momento, as evidências disponíveis não eram suficientes para afirmar que o açúcar, isoladamente, causa dependência em seres humanos.
O que caracteriza um vício?
No dia a dia, a palavra “vício” é usada para descrever hábitos difíceis de abandonar. Na área da saúde, porém, o conceito é mais específico.
O DSM-5-TR, manual de referência para o diagnóstico de transtornos mentais, considera aspectos como a dificuldade de controlar o consumo de uma substância, as tentativas frustradas de reduzir o uso e a continuidade do comportamento apesar das consequências negativas.
Entre os principais sinais avaliados estão:
- Perda de controle: consumir mais do que pretendia ou não conseguir controlar o comportamento repetidamente.
- Desejo intenso: sentir uma vontade forte e persistente de consumir determinada substância.
- Tentativas frustradas de parar: tentar reduzir o consumo várias vezes, sem conseguir.
- Prejuízos na rotina: comprometer o trabalho, os estudos, os relacionamentos ou outras responsabilidades.
- Continuidade apesar dos danos: manter o comportamento mesmo diante de consequências negativas.
Nos transtornos relacionados ao uso de substâncias, o diagnóstico considera um conjunto de critérios, e não apenas um sinal isolado. No DSM-5-TR, dois ou mais critérios em um período de 12 meses podem indicar um transtorno, cuja gravidade depende da quantidade de critérios atendidos.
É importante esclarecer que esses critérios não estabelecem, por si só, um diagnóstico reconhecido de dependência de açúcar. Eles ajudam a entender por que sentir vontade de comer um doce não é o mesmo que apresentar um transtorno relacionado ao consumo de uma substância.
O que o estudo descobriu sobre o açúcar?
A revisão Sugar addiction: the state of the science, publicada em 2016, analisou pesquisas com animais e seres humanos para investigar se o açúcar poderia provocar comportamentos semelhantes aos observados em quadros de dependência.
Nos experimentos com animais, alguns sinais semelhantes à dependência apareceram principalmente quando os animais tinham acesso intermitente ao açúcar, alternando períodos de consumo e restrição.
Entretanto, esses resultados não demonstram que o açúcar provoque dependência em seres humanos. Os pesquisadores destacaram que o padrão de acesso aos alimentos e outros fatores relacionados ao comportamento alimentar poderiam ajudar a explicar os resultados.
Em humanos, as evidências eram limitadas. Além disso, alimentos doces geralmente combinam açúcar com gordura e outros ingredientes, o que dificulta identificar se os efeitos observados são provocados especificamente pelo açúcar.
A principal conclusão do estudo foi que não havia evidências científicas suficientes para confirmar que o açúcar, isoladamente, causa dependência em seres humanos. Isso não significa que a hipótese tenha sido definitivamente descartada, mas que os dados disponíveis não permitiam afirmar que o açúcar causa vício.
Sentir vontade de comer doce significa ter dependência?
Não. A vontade de comer doces pode ter diferentes explicações, incluindo fome, prazer, estresse, sono insuficiente e hábitos construídos ao longo da vida.
Comer chocolate todos os dias, por exemplo, não significa automaticamente ter um vício. Da mesma forma, sentir culpa depois de comer sobremesa não comprova dependência.
A situação merece mais atenção quando a pessoa relata perda frequente de controle, sofrimento significativo e consequências negativas na rotina. Mesmo nesses casos, é necessário avaliar o contexto e considerar outras possibilidades, como episódios de compulsão alimentar.
Esses comportamentos não devem ser diagnosticados como dependência de açúcar apenas com base na frequência do consumo ou na intensidade da vontade de comer.
O açúcar faz mal mesmo sem ser considerado viciante?
Sim. A discussão sobre dependência não deve ser confundida com os efeitos do consumo excessivo de açúcar sobre a saúde.
O consumo elevado de açúcares adicionados pode contribuir para uma alimentação desequilibrada, aumentar a ingestão de calorias e favorecer o ganho de peso. Seus efeitos também dependem da quantidade consumida e do conjunto dos hábitos alimentares.
Por isso, não é necessário classificar o açúcar como uma substância viciante para reconhecer a importância de moderar o consumo.
Priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, manter refeições equilibradas e observar os próprios hábitos são medidas úteis para melhorar a alimentação.
Afinal, açúcar vicia?
Até o momento, a revisão científica de 2016 não encontrou evidências suficientes para afirmar que o açúcar, isoladamente, causa dependência em seres humanos.
A distinção é importante: gostar de doces, desejar açúcar e ter um hábito alimentar não são a mesma coisa que apresentar um transtorno relacionado ao uso de substâncias. Para falar em vício, é necessário considerar critérios específicos, perda de controle e consequências do comportamento.
A ciência continua investigando a relação entre alimentos, recompensa cerebral e comportamento alimentar. Enquanto isso, a melhor abordagem é evitar diagnósticos precipitados e avaliar o consumo de doces com base nas evidências científicas.
Referências científicas
WESTWATER, M. L.; FLETCHER, P. C.; ZIAUDDEEN, H. Sugar addiction: the state of the science. European Journal of Nutrition, v. 55, supl. 2, p. 55–69, 2016.
Artigo completo: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5174153/
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders — DSM-5-TR. 2022.









